Entre a mente e o corpo: os pensamentos dão saúde?

Entre a mente e o corpo: os pensamentos dão saúde?

Ter febre devido à ansiedade. Sentir dores físicas que não têm outra explicação que não o mal-estar psicológico. Ter um enfarte depois de uma perda emocional grande. A mente e o corpo não se desligam, mas será que pensar positivo pode mesmo ajudar-nos a viver melhor?

Já quase todos teremos ouvido a expressão “morrer de amor”. Mas será mesmo possível morrer por causa de um sentimento? Bem, talvez a morte ocorra em casos raros, mas a verdade é que podemos ficar doentes – especificamente ficar com um defeito no coração – devido a um desgosto, uma perda ou um sentimento forte. Chama-se “síndrome do coração partido” e é uma das situações que provam a forte ligação entre a saúde mental e a saúde física.

Primeiro, o que é este “síndrome do coração partido”? De forma simples, trata-se uma alteração súbita e reversível do músculo cardíaco, chamado miocárdio. Uma espécie de evento coronário, como uma angina instável ou um enfarte agudo do miocárdio. As explicações em torno do porquê deste “defeito” acontecer no coração são vagas, mas há algo que se sabe: os fatores.

Entre as causas que levam a este acontecimento está a libertação súbita de catecolaminas (substâncias que fazem o sistema adrenérgico, parte do sistema nervoso, entrar em hiperatividade). Porquê? Devido a um choque emocional ou físico muito intenso. Em suma, perder o companheiro, ser despedido de um emprego de sonho ou a morte de um amigo podem levar a que o coração deixe de funcionar corretamente.

João Cardoso, psiquiatra, começa por descomplicar a ligação entre a saúde mental e a física. “As doenças psicológicas são doenças do cérebro, por isso, estando o cérebro doente, há uma cascata de eventos que provoca a fragilização em termos imunológicos.” Logo, estamos mais suscetíveis a ficar doentes fisicamente.

Esta ligação acontece, num dos casos, devido “a umas glândulas suprarrenais que produzem a hormona do stresse, o cortisol”. Em doses pequenas, esta hormona tem utilidade para uma resposta inflamatória. “O problema é a resposta inflamatória continuada. Se estivermos constantemente em stresse, estamos constantemente a produzir estas substâncias, que terão efeitos menos positivos no nosso corpo.”

Mas as provas de que mente e corpo estão conectados não ficam por aqui. João Cardoso dá o exemplo das pessoas que são amputadas. “Têm dor ou comichão num membro que já não existe.” O psiquiatra das Clínicas Leite explica que isto acontece porque a dor, ainda que seja percetível fisicamente, “é algo que não existe no corpo, mas sim no cérebro”. Já que a dor é processada pelo cérebro e não por mecanismos físicos.

“Portanto, partindo deste exemplo, é natural que seja possível haver esta influência no caso de estar deprimido, por exemplo, em que o meu circuito das emoções estando afetado vá provocar dor e inflamação no corpo.” E não só dói como, tal como referido, enfraquece o sistema imunológico e aumenta a possibilidade de surgirem doenças.

Uma cascata de exemplos

O psiquiatra avança para mais exemplos que comprovam esta ligação, referindo alguns estudos que mostram que, ainda que não esteja provada “uma relação superdireta”, as doenças oncológicas têm maior incidência em pessoas que trabalham à noite. Mais uma vez, relacionado com o efeito que o stresse e as suas hormonas têm no corpo.

“Mas poderia dar uma lista de outras ligações entre mente e corpo. Tal como as crises dermatológicas relacionadas com a ansiedade. Ou quem é que nunca, antes de um evento importante, teve uma dor de barriga?” Há ainda a febre psicológica, já que, devido a um pico de stresse, e à ativação da resposta inflamatória já explicada, o corpo pode subir a temperatura, sem que esta esteja relacionada com um problema físico.

A forma como pensamos, ou, em pormenor, a forma como estamos, devido ao atual ritmo de vida, constantemente em stresse, afeta a nossa saúde física. Mas há também relações menos diretas entre estes dois sistemas: o psicológico e o físico. O psicólogo Paulo Dias, prosseguindo os exemplos já referidos, fala das pessoas que apresentam uma “preocupação constante com o estar doente”. “Essa preocupação pode levar, de facto, a ter sintomas físicos, que não têm outra explicação que não a psicológica e que, se a pessoa não vivesse em constante stresse, provavelmente não surgiriam.”

Também dentro das próprias doenças, a forma como pensamos tem influência. O também neuropsicólogo da Clínica Dr. Alberto Lopes, no Porto, afirma que, “se a pessoa pensa que uma doença é incurável, há uma redução do sistema imunológico, fragilizando a taxa efetiva de recuperação de uma doença”.

“Vamos pegar na frase ‘a forma como pensamos o Mundo, vendo o copo meio cheio ou meio vazio, muda a nossa vida’”, desafia Paulo Dias. “Os pensamentos pessimistas influenciam o nosso comportamento ou bem-estar geral e, por consequência, podem mesmo influenciar o que nos acontece.” Isto porque, continua, “se sou pessimista, irei ter comportamentos desajustados das expectativas dos outros e da sociedade, o que terá um papel fundamental na forma como me relaciono com eles”.

E será que é possível mudarmos a forma como pensamos? “Construir um pensamento positivo é um processo de prática e persistência.” O psicólogo realça que “não é algo que se possa mudar de um dia para o outro”, mas que, com ajuda profissional, é possível. Praticar o que definimos de gratidão, fazer afirmações positivas para si mesmo em frente ao espelho, concentrar no presente, estar rodeado de pessoas que sejam positivas e a própria pessoa aprender com os erros são algumas das dicas dadas por Paulo Dias. “Sem nunca esquecer que a consulta com um psicólogo ou psiquiatra é essencial.” Até porque, finaliza,”ser pessimista leva a uma tendência para apresentar mais somatizações físicas” (queixas de sintomas físicos).

A psicossomática

Neste ramo trabalha há 20 anos a Sociedade Portuguesa de Psicossomática (SPPS) – “psicossomático” é o termo utilizado para descrever problemas de saúde que pertencem tanto ao físico como ao psicológico. Patrícia Câmara, vice-presidente, destaca o trabalho da instituição em fazer entender “o que trazemos dentro de nós, que substâncias libertamos e como as pessoas à nossa volta têm consequência na forma como nos sentimos”.

A também psicanalista retoma a explicação anteriormente dada pelo psiquiatra João Cardoso para sublinhar como “uma desregulação psicossociológica” leva à produção de substâncias que nos vão “adoecendo”. Além disso, Patrícia Câmara introduz o fator do tempo na vivência constante em ansiedade. “Se estamos em constante stresse, não temos tempo para parar e pensar no que o corpo nos mostra, logo, vamos ignorando sinais, ou seja, sintomas que, adiante, serão doenças que poderiam ser evitadas.” A especialista dá o exemplo de uma dor de cabeça, “um sintoma que, provavelmente, será constante em muitas pessoas, mas a que, por norma, não se dá importância, deixando avançar e tratando com analgésicos, sem perceber o que leva realmente àquele sintoma”.

Voltando às substâncias nocivas para o bem-estar físico e que são consequência do bem-estar mental, Patrícia Câmara garante que é algo que se inicia logo em bebé. “As famosas teorias do sono, que nos dizem que devemos deixar o bebé chorar durante a noite para se habituar a adormecer sozinha, são perigosas”, alerta.

A psicanalista avança que, quando um bebé é deixado a chorar, está em stresse agudo, que leva à produção das tais substâncias que, quando produzidas de forma continuada e logo desde tenra idade, irão desenvolver problemas físicos. “Quando um bebé começa a chorar é porque não se regula sozinho e, na realidade, ninguém se regula sozinho. Todos precisamos dos outros, das nossas relações. Um bebé não seria diferente.” Patrícia Câmara questiona: “Seria normal vermos um adulto a chorar desesperadamente e deixá-lo sozinho, sem perguntar sequer se está tudo bem?”

A saúde no dia a dia

Depois das idades mais precoces, o mesmo vai acontecendo em adulto, com “pequenas coisas do dia a dia”, argumenta a vice-presidente da SPPS. E, por isso, o trabalho da Sociedade Portuguesa de Psicossomática, explica, é também fazer a população entender como as relações entre pessoas têm um efeito no stresse dos outros e, por consequência, na libertação de hormonas que podem levar, a longo prazo, a ficarmos doentes fisicamente. “Somos responsáveis pela saúde mental e física uns dos outros”, resume Patrícia Câmara.

Apesar de sublinhar a importância de estar atento aos problemas psicossomáticos, o psiquiatra João Cardoso reforça que este é um diagnóstico “por exclusão”. “Aparecem muitos doentes com coisas variadas e devemos fazer uma investigação aprofundada para garantir, primeiro, que não há qualquer causa física, antes de passar para a conclusão de que se trata de uma ligação com o bem-estar psicológico.”

A fibromialgia é uma das doenças que faz parte dos problemas psicossomáticos. João Cardoso assegura que “as pessoas têm de facto dores”, ainda que as causas sejam psicológicas. O psiquiatra esclarece que há até medicamentos que, sendo antidepressivos, ajudam a atenuar a dor física.

E, tal como pensar “mal” leva a estar “mal” fisicamente, se melhorarmos a saúde mental da população em geral teremos uma melhoria da qualidade física? Paulo Dias responde prontamente: “Sem dúvida”. “Com o aumento de cuidados com a saúde psicológica, podemos ter a certeza que teremos uma melhoria da condição física da população a médio e longo prazo.” O psicólogo remata metaforizando que “os pensamentos são como sementes”: “Quando pensamos de forma positiva, vão-nos ajudar a interpretar o Mundo de forma mais otimista e alegre, melhorando a forma como nos sentimos fisicamente”.

 

por Sara Sofia Gonçalves: Noticias Magazine (https://bit.ly/3OJjA3H)

participação de Paulo Dias: Neuropsicólogo e Hipnoterapeuta da Clínica Dr. Alberto Lopes

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