Como a hipnoterapia pode ajudar quem sofre de ataques de pânico?

Como a hipnoterapia pode ajudar quem sofre de ataques de pânico?

Caraterizados por “episódios intensos de medo que podem surgir de forma abrupta ou devido à exposição a um estímulo que desencadeia uma sensação avassaladora de medo”, os ataques de pânico têm um enorme impacto na vida de quem deles sofre. Maria José Rodrigues deixou de conseguir fazer uma vida dita normal, passando a viver “aprisionada” dentro de casa. A Hipnoterapia “salvou-a” desta prisão.

Segundo Paulo Dias, neuropsicólogo e hipnoterapeuta, “quando somos confrontados com situações (reais ou imaginárias) que possam ser consideradas como ameaçadoras, o mecanismo de defesa do nosso cérebro desencadeia uma resposta de luta/fuga para nos proteger ou evitar o sofrimento”. O medo é, assim, uma emoção universal, natural, que sinaliza “possíveis situações de perigo”. O problema surge quando “esta resposta é ativada de forma excessiva ou inadequada, mesmo quando não há uma ameaça real”, podendo despoletar os chamados ataques de pânico. Estes podem começar a ser frequentes, “como se o sistema de alarme do corpo fosse ativado erroneamente, levando a uma cascata de sintomas físicos e emocionais intensos”, explica o especialista. Durante estes episódios de medo intenso, “é possível experimentar uma combinação de vários sintomas, tais como batimentos cardíacos acelerados, dificuldade em respirar, sudorese, tremores, dormência nas mãos e nos pés, oscilações da temperatura corporal, desrealização (sensação de irrealidade) ou despersonalização (sensação de estar separado de si mesmo), entre muitos outros”.

Embora as suas causas não sejam totalmente compreendidas, existem fatores “que se assumem enquanto risco para os desenvolver”, como por exemplo: “questões genéticas (Se um pai ou mãe tiver um histórico de ataques de pânico, pode existir um maior risco de um filho os desenvolver), experiências traumáticas (exposição a eventos geradores de emoções e pensamentos negativos), personalidade (tendência a preocupações excessivas, perfeccionismo ou alta sensibilidade à ansiedade), fatores ambientais (o uso excessivo de substâncias estimulantes, incluindo cafeína e drogas ilícitas, podem desencadear sintomas de pânico)”. De acordo com Paulo Dias, “a combinação destes fatores de risco pode variar de pessoa para pessoa e a sua origem pode ser complexa e multifacetada. Algumas pessoas podem desenvolver ataques de pânico sem qualquer fator de risco aparente, enquanto outras podem ter múltiplos fatores envolvidos”.

Curiosamente, embora os ataques de pânico possam surgir em qualquer pessoa, independentemente do género, estes são mais frequentes entre as mulheres, existindo ainda uma correlação com a ansiedade. “Por um lado, enquanto a ansiedade é uma resposta adaptativa a situações de stress, os ataques de pânico são episódios agudos de medo intenso que podem ocorrer inesperadamente e sem uma causa aparente, sendo caracterizados por sintomas físicos intensos e uma sensação de perigo iminente. Por outro lado, os ataques de pânico podem gerar uma ansiedade antecipatória, ou seja, a pessoa pode começar a preocupar-se excessivamente com a possibilidade de ter um ataque em determinadas situações. Essa preocupação constante pode agravar a ansiedade e criar um ciclo vicioso, no qual a ansiedade alimenta os ataques de pânico e os ataques de pânico reforçam a ansiedade”, explica o hipnoterapeuta.

«Os ataques de pânico podem condicionar a vida numa espécie de prisão»

De acordo com o especialista das Clínicas Dr. Alberto Lopes, é muito comum, após sofrer um ataque de pânico, “a pessoa evitar a atividade que o desencadeou ou o ambiente em que ele ocorreu”.

“Uma das principais implicações desta condição é a limitação nas atividades diárias. Por exemplo, quem teve um ataque de pânico enquanto conduzia no trânsito, pode não querer mais conduzir e quem o teve no trabalho, pode desejar afastar-se do emprego ou até mesmo trocar de local de trabalho”, acrescenta.

Por outro lado, revela que “a ansiedade gerada pela preocupação constante e persistente de poder desenvolver um ataque sem aviso prévio, leva a que a pessoa comece a evitar determinados lugares ou situações e, por conseguinte, isola-se socialmente o que irá promover um declínio do seu autocuidado podendo reforçar sintomas que potencializem quadros depressivos, ansiosos e hipocondríacos”.

Maria José Rodrigues teve o seu primeiro ataque de pânico durante uma viagem de trabalho, fora da cidade de Londres, onde reside. “Estava a conduzir e, de repente, entrei em pânico e desde então deixei de conseguir conduzir e estar sozinha”, recorda adiantando que, como o seu emprego exigia a realização de muitas deslocações, acabou por se demitir. “Nunca mais conduzi, não entrava em autocarros, comboios e aviões, nunca mais consegui fazer uma vida normal”, conta acrescentando que a situação foi crescendo até não saber lidar com o que lhe estava a acontecer. “Eu já tinha um ataque de pânico só de pensar que ia sair de casa ou ficar sozinha (tinha um ataque de pânico só de pensar que ia ter um ataque de pânico)”, admite revelando que estes episódios surgiam diariamente, nas mais variadas situações.

Maria procurou ajuda médica tendo-lhe sido diagnosticada uma depressão. No entanto, acabou sem suporte psicológico, apenas com a prescrição de um medicamento SOS para ajudar a travar as crises.

“Como não sabia lidar com os ataques de pânico, comecei a sofrer de agorafobia e isso limitava-me a sair. Não respirava nem mesmo ao ar livre. Deixei de trabalhar, sair, conduzir… foi como se tivesse parado no tempo”, explica.

A conselho de um familiar, acabou por procurar ajuda junto da Clínica Dr. Alberto Lopes, recorrendo à hipnoterapia. “Eu nem queria fazer, já não tinha esperança…”, admite.

Acabou por fazer um tratamento mensal de 6 sessões “através de videochamada (porque vivo em Londres)”. E, apesar de ter sido um processo que levou o seu tempo, a pouco e pouco, retomou as atividades e regressou à vida. “Lentamente, consegui pegar no carro, apanhar o autocarro, o comboio e até viajar. É um processo lento, mas efetivo”, afiança revelando que com a hipnoterapia voltou a ganhar confiança em si própria e “a controlar o medo de ter ataques de pânico”. “A hipnoterapia é um passo muito importante nestes casos, recomendo a 100%”, diz feliz.

Segundo Paulo Dias, o tratamento dos ataques de pânico “geralmente envolve uma abordagem terapêutica multidimensional e, em alguns casos, é necessário a prescrição de medicamentos, com o objetivo de minimizar o impacto severo que os sintomas físicos podem gerar”.

No entanto, “a hipnoterapia, uma combinação entre a hipnose (estado alterado, modificado ou expandido da consciência que permite ultrapassar as resistências dos mecanismos de defesa do consciente) e de técnicas terapêuticas, tem demonstrado ser eficaz neste tipo de quadro clínico”. E explica: “Em hipnose a mente torna-se mais recetiva às sugestões positivas, permite explorar de uma forma mais profunda as origens emocionais (traumas) dos ataques de pânico e a identificar padrões de pensamento negativos, substituindo-os por pensamentos mais saudáveis e funcionais. Além disso, a hipnose também pode ser usada para ensinar técnicas de relaxamento que ajudem a reduzir a ansiedade e a promover um maior autocontrolo”.

Ressalva que este tratamento é estabelecido caso a caso, consoante a necessidade do paciente, sendo que, do mesmo modo, “a cura não é instantânea”. “Desde a avaliação prévia e definição de objetivos, ao conjunto de sessões onde serão utilizadas técnicas de intervenção com hipnose, o tratamento consistirá em ajudar a reduzir ou mesmo eliminar a frequência e intensidade dos ataques de pânico. Assim, através desta abordagem é ensinado técnicas de auto-hipnose que promovam um maior autocontrolo e relaxamento, identificar e restruturar determinados eventos traumáticos ocorridos no passado e dessensibilizar o medo intenso que possa estar relacionado com o aparecimento dos ataques de pânico”, revela reforçando que o sucesso desta terapia “requer tempo, esforço e comprometimento”. “Cada pessoa responde de maneira diferente ao tratamento e é importante ter expectativas realistas”, sublinha.

Que estratégias podem ser utilizadas para evitar um novo ataque de pânico?

“Embora seja difícil evitar ter um ataque de pânico, existem atitudes e comportamentos que podem prevenir que ele piore ou fique fora do controlo:

  1. Aprender sobre os ataques de pânico e entender os processos físicos e mentais envolvidos pode ajudar a reduzir o medo e a ansiedade associados a eles.
  2. Praticar técnicas de relaxamento, pode ajudar a reduzir a ansiedade e a tensão física, diminuindo a probabilidade de um ataque de pânico.
  3. Identificar as fontes de stress e desenvolver estratégias eficazes para lidar com elas pode ser útil.
  4. Promover o autocuidado, uma alimentação equilibrada, sono regulado e prática de exercício físico, irá ajudar a manter uma rotina diária consistente e saudável”, indica o especialista.

Entrevista à Atlas Saúde por Sofia Esteves dos Santos (https://bit.ly/3L5nilz)

Paulo Dias – Neuropsicólogo e Hipnoterapeuta na Clínica Dr. Alberto Lopes

 

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